"...É curioso como não sei dizer quem
sou. Quer dizer, sei-o bem, mas não posso dizer. Sobretudo tenho medo
de dizer porque no momento em que tento falar não só não exprimo o que
sinto como o que sinto se transforma lentamente no que eu digo... Sou como você me vê. Posso ser leve como uma brisa ou forte como uma ventania, Depende de quando e como você me vê passar. Não me dêem fórmulas certas, por que eu não espero acertar sempre. Não
me mostrem o que esperam de mim, por que vou seguir meu coração. Não me
façam ser quem não sou. Não me convidem a ser igual, por que
sinceramente sou diferente. Não sei amar pela metade. Não sei viver de
mentira. Não sei voar de pés no chão. Sou sempre eu mesma, mas com
certeza não serei a mesma pra sempre"
Depois que eu vi o sol nascendo pela primeira vez, ele nasceu em mim.
Quando se pôs, não sabia se iria voltar, mas algo dentro não apagou.
Veio a lua. Ela chegou. Algo novo, outra luz, branda, suave. Eu não sabia que refletia o sol e, quando foi embora, entendi que daqui de onde vejo, nada é definitivo.
Vi que a terra nasce todos os dias e morre em cada segundo. Nem as
cores, nem os sons, os tons, nem as caras, nem as vozes, os uivos, os
barulhos, os passos viram pegadas, as luzes viram sombras e depois se
vão, nem o que eu vejo, nem o que penso. Tudo o que nasce e depois se
põe. Tudo que brilha vira reflexo, depois apaga. Tudo o que é, deixa de
ser. Vai.
O tempo que nasce e põe suas mãos sobre as coisas que vão,
carregando-as para além do horizonte que não vejo. Eu só vejo o sol se
por. Eu não vejo.
Reflexos. Combinações de cores, intensidades diminuem, alteram-se
perspectivas, ciclos que terminam. Nada é definitivo. Nada é como
parece. Só parece o que aparece no meu campo de visão. Eu não vejo.
E o tempo que me leva para depois do sol. No horizonte que se apaga,
na luz que diminui, na sombra, densa, voraz, na escuridão que vira
abismo, sem brilho, sem teto, sem chão, sem nada, vazio até que a noite
termine. Nada é como parece.
Depois que eu vi o sol nascendo pela primeira vez, ele nasceu em mim.
Quando se pôs, não sabia se iria voltar, mas algo dentro não apagou.
Veio a lua. Ela chegou. Algo novo, outra luz, branda, suave. Eu não
sabia que refletia o sol e, quando foi embora, entendi que daqui de onde
vejo nada é definitivo.
Não é. Até que renasça no universo que sou, nas paisagens que me
habitam, na luz que sai do olhar, no tempo que vira um instante, o único
que há, o único que sou. Agora vejo. E o que vejo me basta. E o que me
basta, me cala. E o que me cala me pacifica. E o que me pacifica não
precisa mais de explicações. Silêncio. Agora vejo.
Tomara que os olhos de inverno das
circunstâncias mais doídas não sejam capazes de encobrir por muito tempo
os nossos olhos de sol. Que toda vez que o nosso coração se resfriar à
beça, e a respiração se fizer áspera demais, a gente possa descobrir
maneiras para cuidar dele com o carinho todo que ele merece. Que lá no
fundo mais fundo do mais fundo abismo nos reste sempre uma brecha
qualquer, ínfima, tímida, para ver também um bocadinho de céu. Tomara
que os nossos enganos mais devastadores não nos roubem o entusiasmo para
semear de novo. Que a lembrança dos pés feridos quando, valentes,
descalçamos os sentimentos, não nos tire a coragem de sentir confiança.
Que sempre que doer muito, os cansaços da gente encontrem um lugar de
paz para descansar na varanda mais calma da nossa mente. Que o medo
exista, porque ele existe, mas que não tenha tamanho para ceifar o nosso
amor. Tomara que a gente não desista de ser quem é por nada nem ninguém
deste mundo. Que a gente reconheça o poder do outro sem esquecer do
nosso. Que as mentiras alheias não confundam as nossas verdades, mesmo
que as mentiras e as verdades sejam impermanentes. Que friagem nenhuma
seja capaz de encabular o nosso calor mais bonito. Que, mesmo quando
estivermos doendo, não percamos de vista nem de sonho a ideia da
alegria. Tomara que apesar dos apesares todos, dos pesares todos, a
gente continue tendo valentia suficiente para não abrir mão de se sentir
feliz. Tomara.