sábado, 6 de setembro de 2014

PEDAÇOS DE MIM



Eu sou feito de
Sonhos interrompidos
detalhes despercebidos
amores mal resolvidos

Sou feito de
Choros sem ter razão
pessoas no coração
atos por impulsão

Sinto falta de
Lugares que não conheci
experiências que não vivi
momentos que já esqueci

Eu sou
Amor e carinho constante
distraída até o bastante
não paro por instante

Já tive
Noites mal dormidas
perdi pessoas muito queridas
cumpri coisas não prometidas

Muitas vezes eu
Desisti sem mesmo tentar
pensei em fugir,para não enfrentar
sorri para não chorar

Eu sinto pelas
Coisas que não mudei
amizades que não cultivei
aqueles que eu julguei
coisas que eu falei

Tenho saudade
De pessoas que fui conhecendo
lembranças que fui esquecendo
amigos que acabei perdendo
Mas continuo vivendo e aprendendo.
 

Martha Medeiros

sexta-feira, 5 de setembro de 2014

Coisas que eu sei....



Eu quero ficar perto
De tudo o que acho certo
Até o dia em que eu mudar de opinião
A minha experiência
Meu pacto com a ciência
Meu conhecimento é minha distração

Coisas que eu sei
Eu adivinho sem ninguém ter me contado
Coisas que eu sei
O meu rádio relógio mostra o tempo errado
Aperte o play
Eu gosto do meu quarto
Do meu desarrumado
Ninguém sabe mexer na minha confusão
É o meu ponto de vista
Não aceito turistas
Meu mundo ta fechado pra visitação

Coisas que eu sei
O medo mora perto das ideias loucas
Coisas que eu sei
Se eu for eu vou assim não vou trocar de roupa
É minha Lei

Eu corto os meus dobrados
Acerto os meus pecados
Ninguém pergunta mais depois que eu já paguei
Eu vejo o filme em pausas
Eu imagino casas
Depois eu já nem lembro do que eu desenhei

Coisas que eu sei
Não guardo mais agendas no meu celular
Coisas que eu sei
Eu compro aparelhos que eu não sei usar
Eu já comprei
Ás vezes dá preguiça
Na areia movediça
Quanto mais eu mexo mais afundo em mim
Eu moro num cenário
Do lado imaginário
Eu entro e saio sempre quando eu tô afim

Coisas que eu sei
As noites ficam claras no raiar do dia
Coisas que eu sei
São coisas que antes eu somente não sabia...
Agora eu sei...!

Dudu Falcão

Entre o medo e a motivação


Se pudéssemos enxergar nossas dinâmicas interiores em uma tela de computador, veríamos que tudo o que está na superfície – e naturalmente visível- é resultado de combinações daquilo que se esconde nas profundezas, no mais íntimo do ser.
É a soma de nossos medos que produz grande parte de nossas motivações.
O caminho entre esses dois polos – medo e motivação- é pavimentado a partir do significado que damos a cada coisa.
É você quem decide o quanto vale cada passo, recuo, baque, conquista, tragédia, traição, perda, decepção, surpresa ou o que mais lhe acontecer na trajetória.
Muda a intensidade, variam os tons, mas ninguém vive até a maturidade sem experimentar cada uma dessas circunstâncias e, de alguma maneira, ver seu caminho influenciado por elas.
Mas, basta um pouco de atenção para que você perceba que acontecimentos iguais causam impactos completamente diferentes entre as pessoas.
E a razão disso é simples: Cabe a você dar significado ao que lhe acontece.
Para extrairmos o real valor de cada coisa é preciso que o percurso entre o medo e a motivação seja iluminado pela luz do auto conhecimento, e , no fim das contas, tudo serve para isso mesmo: para nos revelarmos, para nos conhecermos.
Se durante a caminhada você não estiver disposto a se reavaliar constantemente e se enxergar com honestidade, será obrigado a enfrentar cada uma das circunstâncias a partir da negação de que, se algo tem valor, é porque antes vale para você. Será como caminhar em uma estrada escura, esburacada, cheia de desvios, de olhos fechados.
Quem se enxerga sabe para onde vai. Se a vida é projeção do mundo que nos habita, melhor andar consciente, de olhos abertos, procurando manter coerência entre o meu caminho e aquilo que sou.

Flávio Siqueira

Rifa-se



Rifa-se um coração quase novo.
Um coração idealista.
Um coração como poucos.
Um coração à moda antiga.
Um coração moleque que insiste em pregar peças no seu usuário.
Rifa-se um coração que na realidade está um pouco usado, meio calejado, muito machucado e que teima em alimentar sonhos, e cultivar ilusões.
Um pouco inconsequente que nunca desiste de acreditar nas pessoas.
Um leviano e precipitado, coração que acha que Tim Maia estava certo quando escreveu... "não quero dinheiro, eu quero amor sincero, é isso que eu espero...". Um idealista...
Um verdadeiro sonhador...
Rifa-se um coração que nunca aprende.
Que não endurece, e mantém sempre viva a esperança de ser feliz, sendo simples e natural.
Um coração insensato que comanda o racional sendo louco o suficiente para se apaixonar.
Um furioso suicida que vive procurando relações e emoções verdadeiras.
Rifa-se um coração que insiste em cometer sempre os mesmos erros.
Esse coração que erra, briga, se expõe.
Perde o juízo por completo em nome de causas e paixões.
Sai do sério e, às vezes revê suas posições arrependido de palavras e gestos.
Este coração tantas vezes incompreendido.
Tantas vezes provocado.
Tantas vezes impulsivo.
Rifa-se este desequilibrado emocional que, abre sorrisos tão largos que quase dá pra engolir as orelhas, mas que também arranca lágrimas e faz murchar o rosto.
Um coração para ser alugado, ou mesmo utilizado por quem gosta de emoções fortes.
Um órgão abestado indicado apenas para quem quer viver intensamente e, contra indicado para os que apenas pretendem passar pela vida matando o tempo, defendendo-se das emoções.
Rifa-se um coração tão inocente que se mostra sem armaduras e deixa louco o seu usuário.
Um coração que quando parar de bater ouvirá o seu usuário dizer para São Pedro na hora da prestação de contas: " O Senhor poder conferir", eu fiz tudo certo, só errei quando coloquei sentimento.
Só fiz bobagens e me dei mal quando ouvi este louco coração de criança que insiste em não endurecer e, se recusa a envelhecer".
Rifa-se um coração, ou mesmo troca-se por outro que tenha um pouco mais de juízo.
Um órgão mais fiel ao seu usuário.
Um amigo do peito que não maltrate tanto o ser que o abriga.
Um coração que não seja tão inconsequente.
Rifa-se um coração cego, surdo e mudo, mas que incomoda um bocado.
Um verdadeiro caçador de aventuras que, ainda não foi adotado, provavelmente, por se recusar a cultivar ares selvagens ou racionais, por não querer perder o estilo.
Oferece-se um coração vadio, sem raça, sem pedigree.
Um simples coração humano.
Um impulsivo membro de comportamento até meio ultrapassado.
Um modelo cheio de defeitos que, mesmo estando fora do mercado, faz questão de não se modernizar, mas vez por outra, constrange o corpo que o domina.
Um velho coração que convence seu usuário a publicar seus segredos e, a ter a petulância de se aventurar como poeta.

Clarice Lispector

EU TE AMO... NÃO DIZ TUDO!



EU TE AMO NÃO DIZ TUDO
              
                                
Ele(a) diz que te ama... então tá! Ele(a) te ama!
Assunto encerrado!!!

Você sabe que é amado porque lhe disseram isso, as três palavrinhas mágicas.

Mas saber-se amado é uma coisa, sentir-se amado
é outra, uma diferença de quilômetros.

A demonstração de amor requer mais do que beijos,
sexo e palavras.

Sentir-se amado é sentir que a pessoa tem interesse real na sua vida,

Que zela pela sua felicidade,

Que se preocupa quando as coisas não estão dando certo,

Que se coloca a postos para ouvir suas dúvidas,

E que dá uma sacudida em você quando for preciso.

Ser amado é ver que ele(a) lembra de coisas que você contou dois anos atrás,

E vê-lo(a) tentar reconciliar você com seu pai,

É ver como ele(a) fica triste quando você está triste,

E como sorri com delicadeza quando diz que você está fazendo uma tempestade em copo d`água.

Sentem-se amados aqueles que perdoam um ao outro e que não transformam a mágoa em munição na hora da discussão.

Sente-se amado aquele que se sente aceito, que se sente inteiro.

Sente-se amado aquele que tem sua solidão respeitada,

Aquele que sabe que tudo pode ser dito e compreendido.

Sente-se amado quem se sente seguro para ser exatamente como é,

Sem inventar um personagem para a relação,

Pois personagem nenhum se sustenta muito tempo.

Sente-se amado quem não ofega, mas suspira;

Quem não levanta a voz, mas fala;

Quem não concorda, mas escuta.

Agora, sente-se e escute: Eu te amo não diz tudo!

"Me ame quando eu menos merecer,
que é quando eu mais preciso."


       (Arnaldo Jabor) 

quinta-feira, 4 de setembro de 2014

É preciso acordar

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Um dia nós soubemos. Não conhecíamos a tecnologia avançada, o poder de conectar máquinas, de vencer a gravidade, de reunir tantas informações em pequenos aparelhos, estávamos muito longe disso, mas houve um tempo em que a maioria sabia, sentia.
Talvez não houvesse a consciência clara dos significados, mas cada homem e mulher, cada idoso, cada criança sentia que era parte de algo maior.
Começava com o sol pela manhã, seus raios, sua energia tocando cada centelha de vida, iluminando caminhos que não iam tão longe, grupos, aldeias, tribos, gente que se misturava em conexão uns com os outros, mais nós do que eu, reverenciando a natureza e seus fenômenos, sentindo os cheiros, percebendo os movimentos, atentos aos sinais que desciam do céu, subiam da terra e chegavam do mar.
Todos parte de uma coisa só, vinculados em nome da sobrevivência, co existindo em uma única dimensão.
Um dia soubemos que havia algo mais dentro da gente. Não havia tanta teoria, as explicações eram escassas, cheias de símbolos e arquétipos, mas isso não importava, afinal, ouvíamos, enxergávamos, tocávamos, cheirávamos, lambíamos o sagrado que estava em tudo, em todos, em nós.
Deus estava em nossas canções, descansava na natureza, acompanhava os animais, passeava em nossas terras e habitava dentro da gente, nos dava bom dia quando acordávamos e, a noite, sem medo do escuro, sem fugir do silêncio, atentos as sinfonias dos grilos e dos bichos que dormem de dia, dávamos boa noite e pedíamos sua proteção.
Houve um tempo que nossos sonhos eram coletivos, nossa fé abrangente, nossos vínculos necessários. Estávamos conectados e sabíamos sem explicar, conhecíamos com naturalidade, eramos mestres uns dos outros e aprendizes de todos. Já faz tempo que as coisas mudaram.
Aqueles seres quase divinos que caminhavam pela terra se esqueceram de quem são. Permitiram-se condicionar, fecharam seus olhos para o mistério de ser, pensam que são o que não são, vivem sem saber a razão, fogem da morte, fogem do outro, fogem de si mesmos. Houve um tempo que ficou em algum ponto da história, mas não deixou de existir.
Esse tempo é o tempo da eternidade, fragmento do hoje, momento agora que se renova sempre que uma consciência começa a despertar. Há uma dimensão dentro de nós, acessível para todo aquele que interrompe o caminho do fluxo da cegueira, se questiona, se aquieta, se percebe e entende que o sagrado é. Não está lá, muito menos se projeta em objeto algum, mas vive em nós.
Estamos todos conectados, somos parte de algo maior, sentimos, percebemos, mas quem pode explicar? É preciso despertar, descondicionar-se e ouvir Deus na gente.
O tempo das conexões, do divino, do sagrado jamais deixou de existir. Ele acontece agora em algum lugar dentro de cada ser vivo que passeia pela terra, que experimenta esse lapso que chamamos de vida, que acorda pela manhã sem notar o milagre que é. Que um dia está aqui, no outro, quem sabe? É preciso silêncio. É preciso reverencia. É preciso acordar.

Flavio Siqueira

A saudade fala português


Eu tenho saudades de tudo que marcou a minha vida
Quando vejo retratos, quando sinto cheiros,
Quando escuto uma voz, quando me lembro do passado,
Eu sinto saudades...

Sinto saudades de amigos que nunca mais vi,
De pessoas com quem não mais falei ou cruzei...


Sinto saudades da minha infância,
Do meu primeiro amor, do meu segundo, do terceiro,
Do penúltimo, e daqueles que ainda vou vir a ter,
Se Deus quiser...

Sinto saudades do presente, que não aproveitei de todo,
Lembrando do passado e apostando no futuro...

Sinto saudades do futuro, que se idealizado,
Provavelmente não será do jeito que eu penso que vai ser...

Sinto saudades de quem me deixou e de quem eu deixei,
De quem disse que viria e nem apareceu;
De quem apareceu correndo, sem tempo de me conhecer direito,
De quem nunca vou ter a oportunidade de conhecer.

Sinto saudades dos que se foram
E de quem não me despedi direito,
Daqueles que não tiveram como me dizer adeus;
De gente que passou na calçada contrária da minha vida
E que só enxerguei de vislumbre;
De coisas que eu tive e de outras que não tive, mas quis muito ter;
De coisas que nem sei como existiram, mas que se soubesse,
De certo gostaria de experimentar; 


Quantas vezes tenho vontade de encontrar não sei o que,
Não sei aonde,
Para resgatar alguma coisa que nem sei o que é 

E nem onde perdi...
Vejo o mundo girando e penso que poderia estar
Sentindo saudades em japonês,
Em russo, em italiano, em inglês,
Mas que minha saudade,
Por eu ter nascido brasileira,
Só fala português embora, lá no fundo, possa ser poliglota.


Aliás, dizem que se costuma usar sempre a língua pátria,
Espontaneamente, quando estamos desesperados,
Para contar dinheiro, fazer amor e declarar sentimentos fortes,
Seja lá em que lugar do mundo estejamos.
Eu acredito que um simples "I miss you",
Ou seja, lá como possamos traduzir saudade
Em outra língua, nunca terá a mesma força
E significado da nossa palavrinha.


Talvez não exprima, corretamente,
A imensa falta que sentimos de coisas ou pessoas queridas.


 

E é por isso que eu tenho mais saudades...
Porque encontrei uma palavra para usar
Todas as vezes que sinto este aperto no peito,
Meio nostálgico meio gostoso,
Mas que funciona melhor do que um sinal vital
Quando se quer falar de vida e de sentimentos.

Ela é a prova inequívoca de que somos sensíveis,
De que amamos muito do que tivemos e lamentamos as coisas boas
Que perdemos ao longo da nossa existência...
Sentir saudade é sinal de que se está vivo!



Desconhecido