quarta-feira, 11 de junho de 2014

Chorando e Cantando - Geraldo Azevedo


Cantinho do Flavio - Desiludiu-se?


Soneto da Separação




De repente do riso fez-se o pranto
Silencioso e branco como a bruma
E das bocas unidas fez-se a espuma
E das mãos espalmadas fez-se o espanto.

De repente da calma fez-se o vento
Que dos olhos desfez a última chama
E da paixão fez-se o pressentimento
E do momento imóvel fez-se o drama.

De repente, não mais que de repente
Fez-se de triste o que se fez amante
E de sozinho o que se fez contente.

Fez-se do amigo próximo o distante
Fez-se da vida uma aventura errante
De repente, não mais que de repente.

Vinícius de Moraes

terça-feira, 10 de junho de 2014

I' ll Never Love This Way Again....


Cantinho do Flavio - Inadequados

Maria, lutando há mais de 30 anos contra a vida que tem, não sabe que sua luta é apenas inadequação.
Evandro, endividado, inquieto, sobrecarregado de demandas, não sabe que sua luta é apenas inadequação.
Simone está doente. Faz tratamento no hospital, sente dores, os médicos não estão otimistas. Tem família, filho pequeno. Simone sofre e não sabe que sofre por inadequação.
Morrer nos parece inadequado. Perder, lutar, sofrer, adoecer, situações tantas vezes inevitáveis, geram perplexidade, especialmente porque, ainda que exista, não se encaixa, parece que jamais corresponderá ao que intimamente acreditamos ser o ideal, o adequado.
Um corpo que envelhece, uma mente senil, o tempo que passa, as folhas que caem, o bicho que morre, fragmentos de realidade que se espalham sobre a terra e fora dela, nas explosões espaciais, as estrelas dissolvem, os cometas se chocam, inadequadamente.
Janaína não se sente confortável em seu corpo. Não é questão de falta ou excesso de peso, não é estético, é outra coisa. Um sentimento de que ela não é ela, de que está no lugar errado, um sentimento estranho, inadequado.
Lucas não se sacia. Come tudo, come todas, falta alguma coisa, corre atrás de não sabe o que, tenta suprir o que lhe falta, o vazio que parece inadequação.
Somos bichos que não se adequaram. “Coisas” que vivem em corpos e se esqueceram o que são. Consciências vinculadas, entes que se conectam, relacionam, podem ver, ser, existem, ainda que tantas vezes a existência pareça não encaixar.
Ser feliz é adequar-se. É ser quem é e quem pode ser. Aconchegar-se no corpo, acomodar-se na vida, relacionar-se com a perda, silenciar-se na dor. Ser feliz é adequar-se.
Tudo passa, tudo muda. Fixidez é apenas uma palavra, nada mais.
Enxergar a vida tem a ver com perceber que cada acontecimento é um movimento de adequação. Tudo se encaixa. Até a morte, até as perdas, até a dor.
Todo sofrimento é inadequação.
Não importa qual seja, por mais difícil, ainda que doa, você não sabe, mas sofre por um profundo sentimento de inadequação.
Adequar-se não é resignar-se preguiçosamente. Isso é coisa do medo. Adequar-se é aquietar-se. É perceber os movimentos, as adequações, sem a interferência da indignação, do medo, da tendência de pensar que é vitima.
Você não é. Você está vivo.
Está sujeito aos processos de adequação, de encaixe, de vida que não pode compreender agora, mas, acredite, entenderá depois.
Aquiete-se.
Ele pensa que seu sofrimento tem nome, ela acha que a dor é causada por determinado evento, mas passará, aliviará, se adequará ao que é, ao que somos, seres que são o que são, alma e carne, corpo e espírito, coisa, ambivalentes, inquietos até que se calem. Até que se adequem.

Flavio Siqueira

A Mulher que Passa


Meu Deus, eu quero a mulher que passa.
Seu dorso frio é um campo de lírios
Tem sete cores nos seus cabelos
Sete esperanças na boca fresca!
Oh! como és linda, mulher que passas
Que me sacias e suplicias
Dentro das noites, dentro dos dias!
Teus sentimentos são poesia
Teus sofrimentos, melancolia.
Teus pêlos leves são relva boa
Fresca e macia.
Teus belos braços são cisnes mansos
Longe das vozes da ventania.
Meu Deus, eu quero a mulher que passa!
Como te adoro, mulher que passas
Que vens e passas, que me sacias
Dentro das noites, dentro dos dias!
Por que me faltas, se te procuro?
Por que me odeias quando te juro
Que te perdia se me encontravas
E me encontrava se te perdias?
Por que não voltas, mulher que passas?
Por que não enches a minha vida?
Por que não voltas, mulher querida
Sempre perdida, nunca encontrada?
Por que não voltas à minha vida?
Para o que sofro não ser desgraça?
Meu Deus, eu quero a mulher que passa!
Eu quero-a agora, sem mais demora
A minha amada mulher que passa!
No santo nome do teu martírio
Do teu martírio que nunca cessa
Meu Deus, eu quero, quero depressa
A minha amada mulher que passa!
Que fica e passa, que pacifica
Que é tanto pura como devassa
Que bóia leve como a cortiça
E tem raízes como a fumaça.

Vinícius de Moraes

segunda-feira, 9 de junho de 2014

Flavio, você acredita no mal?

“Flavio, quando você diz que os acontecimentos de fora refletem os de dentro não está desconsiderando a existência do mal como realidade? Considere, no entanto: o mal existe, tragédias acontecem, dores, privações, homicídios, torturas, etc… Esses eventos não deixarão de serem ruins e maus, apenas pela minha mudança de entendimento sobre eles. Eles, inevitavelmente geram marcas e cicatrizes. Você acha mesmo que o mal é uma ilusão?”
- Não me refiro à natureza dos acontecimentos, mas de nossa percepção, inclusive nossa falta de capacidade em definirmos exatamente o que é “bom” e o que é “mau”.
Cito tragédias coletivas como exemplo, especialmente quando um mesmo evento suscita percepções diferentes, desdobramentos que se conectam as diferentes leituras.
No plano imediato inegavelmente foi “mal” (perseguição a judeus, tsunamis, vulcões), mas chamo atenção sobre o quanto nosso olhar pode modificar desdobramentos subsequentes, relativizando a percepção maniqueísta e absoluta. Acredito que é justamente o que me habita que definirá minha “impressão”.
Não estou com isso dizendo que bem e mal não existem, especialmente porque, se posso percebê-los (mesmo quando não está claro) é porque essa dualidade faz parte de minha natureza, no entanto, acho importante enxergarmos o nível de nossa interferência nos processos da vida, especialmente nossa tendência em reagirmos imediatamente sem refletirmos, sem a suficiente percepção do quanto somos responsáveis pelos cenários que de algum modo sempre refletem o que somos.
Obviamente existe a questão da existência e natureza do mal, mas, sinceramente, acredito que antes desse debate é preciso um pouco mais de clareza sobre o “mal” que projeto e o “bem” que faz mal.
Ficar no absoluto sem olhar para isso pode diminuir a capacidade de compreender a natureza dos acontecimentos e repercussões interiores.
Se não podemos evitar as tragédias e tantas vezes somos pegos de surpresa pela imprevisibilidade da vida, podemos sim escolher o que vamos fazer com os acontecimentos, qualquer um, essa escolha é nossa e, acredite, pode mudar mundos inteiros com um simples movimento de consciência.
Não estamos aqui para debater sobre os fundamentos e a natureza do bem e do mal, isso não levará a nenhum lugar produtivo. Bem e mal existem como realidade em mim e se projetam pelo olhar (a lâmpada do corpo):
Se seus olhos forem bons, tudo será bom, no entanto, se o seu interior for “mal”, acredite, o mal se espalhará como chão em cada canto que pisar. Essa escolha é nossa e cabe a cada um revalidá-la em cada etapa do caminho.

Flavio Siqueira