terça-feira, 25 de outubro de 2016

Falar a verdade, ou amar?


Para vocês, o que é mais importante: falar a verdade, ou amar?

Se sua resposta foi: falar a verdade, você errou, pois falar a verdade sem amor é brutalidade.

Se sua resposta foi: amar, você errou também, pois amar sem ser verdadeiro é hipocrisia.

A única resposta que demonstra maturidade é: as duas coisas. Alguém maduro é alguém que sabe falar a verdade em amor, brandamente. Paulo, em Ef 4.15-16 está a dizer de outra maneira aquilo que escreveu às igrejas na Galácia:

Irmãos, se alguém for surpreendido nalguma falta, vós, que sois espirituais, corrigi-o com espírito de brandura; e guarda-te para que não sejas também tentado. Levai as cargas uns dos outros e, assim, cumprireis a lei de Cristo. Porque, se alguém julga ser alguma coisa, não sendo nada, a si mesmo se engana.

Gl 6.1–3

O espírito de brandura sempre deve estar presente quando alguém for falar a verdade para outro, principalmente se esta verdade for sobre o pecado desta outra pessoa. 

Verdade e unidade sempre estiveram em disputa na igreja cristã. A razão é simples: imaturidade. Apenas crianças não conseguem lidar com o equilíbrio verdade/unidade. Paulo, no texto abaixo, mostra como um cristão pode ser saudável à medida que experimenta crescimento em amor e verdade. Um sem o outro é sinal de enfermidade espiritual. Não é possível nem mesmo haver crescimento pessoal — ou coletivo — sem que estejamos lidando maduramente com a verdade e o amor.

   Mas, seguindo a verdade em amor, cresçamos em tudo naquele que é a cabeça, Cristo, de quem todo o corpo, bem ajustado e consolidado pelo auxílio de toda junta, segundo a justa cooperação de cada parte, efetua o seu próprio aumento para a edificação de si mesmo em amor.

   Ef 4.15–16

 Mas, seguindo a verdade em amor, 

Não há como existe amor sem a verdade, e não há como existir a verdade sem o amor. A primeira palavra deste verso é ἀληθεύοντες (alētheúontes) que significa literalmente “falando a verdade”. Pode significar também “ser verdadeiro”, e, especialmente nesta passagem, significa “caminhando na verdade”. A pergunta que poderíamos fazer é: qual verdade? No tempo em que vivemos, a relativização da verdade torna este verso uma base para qualquer heresia.

Não creio na relativização da verdade, pois a mesma é bem descrita na Palavra e está associada a uma pessoa e sua mensagem. Cristo e o Evangelho são a verdade. E é bom lembrar que o Evangelho está presente tanto no Novo quanto no Antigo Testamento.

No entanto, devemos caminhar sobre o Evangelho e em Cristo em amor. A experiência de Esdras demonstra alguém que viveu esta recomendação antes mesmo dela existir:

Porque Esdras tinha disposto o coração para buscar a Lei do SENHOR, e para a cumprir, e para ensinar em Israel os seus estatutos e os seus juízos.

Ed 7.10

Falar a verdade em amor é sinal de maturidade cristã. Há quem ame, mas não consegue falar a verdade. E há quem goste de falar a verdade, mas não sabe falá-la de um modo amoroso. Por isso, só se vive esta orientação do verso 15 em um estado de maturidade cristã.

Como escreveu Warren Wiersbe, “verdade sem amor é brutalidade, mas amor sem verdade é hipocrisia”.⁠1 A fim de não sermos hipócritas ou brutos, precisamos crescer, amadurecer, em tudo “naquele que é a cabeça, Cristo”.

cresçamos em tudo naquele que é a cabeça, Cristo, 

Cristo é o cabeça e de tudo o que é feito no Corpo. É ele quem nos dá a direção para o crescimento. Sem suas orientações, correríamos ao redor do rabo, como um pequeno cachorro, sem sair do lugar. É pela iluminação de suas palavras que encontramos o caminho para sairmos da imaturidade e deixarmos a brutalidade ou a hipocrisia. O que Deus espera de nós é a presença tanto da verdade quanto do amor em nossas vidas. Mas nada disso seria possível sem que tivéssemos Cristo como cabeça, como orientador e alimentador deste Corpo.

de quem todo o corpo, bem ajustado e consolidado pelo auxílio de toda junta, segundo a justa cooperação de cada parte, efetua o seu próprio aumento para a edificação de si mesmo em amor.

Outra evidência de maturidade na vida de um cristão é quando este está em cooperação com outros cristãos. Ef 4.16 explica que os membros de um corpo local — uma igreja local — pertencem um ao outro, afetam um ao outro, e precisam um do outro. Não há pessoa insignificante no Corpo de Cristo. Paulo já havia dito em Ef 4.2:

com toda a humildade e mansidão, com longanimidade, suportando-vos uns aos outros em amor,

Ef 4.2

Qualquer pessoa que deixa de viver isso, deixa de viver a vontade de Deus. E, nisso, peca. Por mais que tal pessoa se considere insignificante ou incapaz, tais considerações são uma mentira de sua mente para sua própria alma. Assim como não há partes em um corpo humano que sejam consideradas insignificantes a ponto de considerarmos retirá-las de nosso corpo, também não há parte insignificante no Corpo de Cristo. Todos no Corpo possuem um propósito aos olhos de Deus, e crescem à medida em que são alimentadas, exatamente como é no corpo humano. Este crescimento acontece à medida em que o alimento espiritual é administrado fielmente a estes membros. Quem não se alimenta da Palavra, permanecerá sempre um bebê espiritual, um bebê amado, mas que por não se alimentar, permanecerá sempre dependente dos outros, carente dos outros, inútil, hipócrita e bruto. A única solução — ou remédio — para isso é a correta administração da Palavra na vida deste membro bebê que nunca cresceu.

Daqui nós entendemos que a unidade espiritual não é algo fabricado com técnicas ou estratégias. Por mais úteis para a comunhão que sejam as comunidades familiares, os grupos familiares, as células, os pequenos grupos, os núcleos de estudo bíblico, e os tantos modelos que existem de reuniões familiares entre os cristãos, nada disso pode dar verdadeira unidade espiritual. Somente o alimento espiritual, somente a Verdade pode unir de verdade. A ausência da Verdade de Deus só gera hipocrisia. E os cristãos devem fugir da mesma. É assim que, falando a verdade em amor, vivemos juntos, equipamos e edificamos uns aos outros, a fim de que todos nós possamos crescer e ser mais parecido com Cristo.⁠2

De Cristo, o cabeça, a igreja recebe força para crescer. É dele que vem a capacidade para crescermos e nos edificarmos. As palavras “bem ajustado e consolidada” (συναρμολογούμενον καὶ συμβιβαζόμενον – synarmologoúmenon kaì symbibazómenon). A correta identificação destas palavras nos levam à compreensão de algo que está em harmonia ou adaptação e de algo compacto ou sólido.⁠3 O crescimento da igreja deve levá-la a um nivele compactação e plena alegria, celebração. 

É necessário que estejamos bem ajustados e consolidados. Isso só se dá pela participação de todos, estando todos cientes de seu lugar no corpo, seus dons, suas funções, suas vocações. É em amor que todo esse processo acontece. Pedro escreveu isso de um modo brilhante em sua segunda epístola:

por isso mesmo, vós, reunindo toda a vossa diligência, associai com a vossa fé a virtude com a virtude, o conhecimento; com o conhecimento, o domínio próprio com o domínio próprio, a perseverança com a perseverança, a piedade; com a piedade, a fraternidade com a fraternidade, o amor. Porque estas coisas, existindo em vós e em vós aumentando, fazem com que não sejais nem inativos, nem infrutuosos no pleno conhecimento de nosso Senhor Jesus Cristo. Pois aquele a quem estas coisas não estão presentes é cego, vendo só o que está perto, esquecido da purificação dos seus pecados de outrora. Por isso, irmãos, procurai, com diligência cada vez maior, confirmar a vossa vocação e eleição; porquanto, procedendo assim, não tropeçareis em tempo algum. Pois desta maneira é que vos será amplamente suprida a entrada no reino eterno de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo.

2Pe 1.5–11

Segundo o texto, devemos ser “frutuosos no pleno conhecimento de nosso Senhor Jesus Cristo”. Ou seja, nossa vida deve dar frutos naturalmente; frutos de arrependimento, frutos de bondade, frutos de perdão, frutos de mansidão, frutos de uma nova vida, frutos do Espírito Santo de Deus em nossas vidas.

Cada parte no Corpo de Cristo coopera para o crescimento das demais partes. Ninguém é inútil no Corpo de Cristo, muito menos esquecido. Cristo usa a todos, a menos que uma parte desse todo esteja doente, fraco, carecendo de restauração.

O ideal no Corpo é estar ele todo junto, cooperando, amando, perdoando, e fazendo a Obra que Ele, a Cabeça, nos deixou para fazer. O Corpo de Cristo é um organismo vivo que cresce ou adoece. Paulo está aqui orientando a igreja a maneira como o crescimento ocorre saudavelmente.

A metáfora do corpo humano serve para enfatizar a unidade (em amor) que deve sempre estar presente na Igreja.⁠4 Toda desunião é como uma ferida aberta no corpo por onde vírus e bactérias estranhas ao corpo entram no mesmo. Todo desentendimento ou desunião é uma porta aberta para Satanás, espíritos imundos e malignos, além de ser uma porta aberta para falsos mestres também. Um corpo saudável que se protege do mal é um corpo que cresce em amor, falando a verdade sempre em amor.

É vital que “cresçamos” em Cristo se queremos ser uma expressão válida de Jesus para o mundo de hoje. E esse crescer só pode se dar através do amor de cada parte, de cada membro, de cada um por seu próximo. Sem amor, não crescemos. Sem amor, você não crescer.⁠5 

Voltando ao texto aos Gálatas, citado mais acima, entendemos que não há, para o cristão, como falar a verdade sem amor. Fazer isso é imaturidade, despreparo e pecado. Tal pessoa nem deveria falar, pois está tentando corrigir um pecado cometendo outro:

Irmãos, se alguém for surpreendido nalguma falta, vós, que sois espirituais, corrigi-o com espírito de brandura; e guarda-te para que não sejas também tentado. Levai as cargas uns dos outros e, assim, cumprireis a lei de Cristo. Porque, se alguém julga ser alguma coisa, não sendo nada, a si mesmo se engana.

Gl 6.1–3

Falar sem amor é julgar ser mais que o outro. Como Paulo diz: se alguém julga ser alguma coisa, não sendo nada, a si mesmo se engana. É exatamente por reconhecermos que não somos ninguém sem a graça de Deus que procuramos falar com amor àquele(a) que nos feriu.

A lei de Cristo, ou seja, a vontade de Deus, é também que levemos uns aos outros, que suportemos uns aos outros, em amor. E quando alguém encontrar seu irmão ou irmã em pecado, que o(a) procure com espírito de brandura, guardando-se para cair no mesmo erro, agindo em tudo pensando no crescimento do outro que, na verdade, é o crescimento de si mesmo.



Posted on 28 de outubro de 2014 by Wilson Porte