segunda-feira, 3 de abril de 2017

Renovarei a aliança que fiz com você, e você ficará sabendo que eu sou o Senhor!


Jerusalém, a cidade infiel
1 O Senhor falou comigo de novo. Ele disse:
2 — Homem mortal, mostre a Jerusalém as coisas nojentas que ela tem feito. 3 Diga a Jerusalém que o Senhor Deus lhe diz o seguinte:
— Você nasceu na terra de Canaã. O seu pai era amorreu, e a sua mãe era heteia . 4 Quando você nasceu, ninguém cortou o cordão do seu umbigo, nem lhe deu banho, nem esfregou sal em você, nem a enrolou em panos. 5 Ninguém teve dó bastante para lhe fazer qualquer uma dessas coisas. Quando você nasceu, ninguém gostava de você, e até a jogaram no mato.
6 — Então passei por perto e vi você rolando no seu próprio sangue. Embora você estivesse coberta de sangue, eu não deixei que morresse. 7 Eu a fiz crescer como uma planta sadia. Você cresceu forte e alta e ficou moça. Os seus seios se formaram, e os seus cabelos ficaram compridos, mas você estava nua.
8 — Quando passei de novo, vi que havia chegado o tempo de você amar. Então cobri o seu corpo nu com a minha capa e prometi amar você. Sim! Fiz um contrato de casamento com você, e você se tornou minha. Sou eu, o Senhor Deus, quem está falando.
9 — Eu a lavei com água e limpei o sangue que a cobria. Passei azeite na sua pele. 10 Eu a vesti com roupas bordadas e lhe dei sapatos do melhor couro, um turbante de linho e uma capa de seda. 11 Eu a enfeitei com joias — pulseiras e colares. 12 Dei uma argola para o seu nariz, brincos para as suas orelhas e uma linda coroa para a sua cabeça. 13 As suas joias eram de ouro e prata, e você sempre usou vestidos bordados, de linho e de seda. Você comeu pão feito da melhor farinha e tinha mel e azeite à vontade. Você era muito bonita e chegou a ser rainha. 14 Em todas as nações falavam da sua beleza perfeita porque fui eu que a fiz assim tão linda. Sou eu, o Senhor Deus, quem está falando.
15 — Mas você se aproveitou da sua beleza e da sua fama para dormir com qualquer um que passava . 16 Usou os seus vestidos para enfeitar os seus lugares de adoração e ali você se entregava a qualquer um, como uma prostituta. 17 Você pegou as joias de prata e de ouro que eu lhe tinha dado e com elas fez imagens de seres humanos; você foi infiel a mim, adorando essas imagens. 18 Você pegou os vestidos bordados que lhe dei e com eles vestiu as imagens e ofereceu a elas o azeite e o incenso que eu lhe tinha dado. 19 Eu lhe dei comida: a melhor farinha, azeite e mel, mas você ofereceu tudo isso como sacrifício para agradar os ídolos. Sou eu, o Senhor Deus, quem está falando.
20 — Depois, você pegou os nossos filhos e as nossas filhas e os ofereceu como sacrifício aos ídolos. Será que não bastou que você tivesse sido infiel a mim? 21 Será que ainda precisou matar os meus filhos e oferecê-los em sacrifício aos ídolos? 22 Durante a sua vida miserável de prostituta, nem uma vez você lembrou da sua juventude, quando estava nua, rolando no seu próprio sangue.
Jerusalém, a prostituta
23 O Senhor Deus disse:
— Ai de você! Sim! Ai de você! Depois de ter feito todo esse mal, 24 você ainda construiu altares em todas as estradas para ali adorar ídolos e praticar a prostituição. 25 Você arrastou a sua beleza pela lama. E se ofereceu a todos os que passavam e se afundou cada vez mais na prostituição e na adoração de ídolos. 26 Você convidou os egípcios, seus vizinhos imorais, para que fossem para a cama com você, e por isso me deixou irado.
27 — Portanto, agora eu levantei a mão para castigá-la e para tirar a parte que você tinha na minha bênção. Eu a entreguei aos filisteus, que a odeiam e que estão com nojo das ações imorais que você tem praticado.
28 — Não satisfeita com tudo isso, você correu atrás dos assírios. Você foi prostituta deles, mas eles também não a deixaram satisfeita. 29 Depois, você serviu de prostituta para os babilônios, aquela nação de comerciantes, mas eles também não a deixaram satisfeita.
30 O Senhor Deus diz o seguinte:
— Você fez tudo isso como uma prostituta sem-vergonha. 31 Em todas as ruas, você construiu altares para ali adorar ídolos e praticar a prostituição. Mas você não faz isso por dinheiro, como uma prostituta qualquer. 32 Você é como a mulher que, em vez de amar o seu marido, comete adultério com estranhos. 33 A prostituta é paga, mas você deu presentes a todos os seus amantes e ainda lhes ofereceu lembranças para que viessem de todas as partes dormir com você. 34 Você é uma prostituta diferente. Ninguém a obrigou a se tornar prostituta. Você não recebe nada, mas paga! Sim! Você é diferente!
A condenação de Jerusalém
35 Por isso, agora, você, prostituta, escute o que o Senhor Deus diz. 36 E o que ele diz é isto:
— Você tirou a roupa, e como prostituta se entregou aos seus amantes e a todos os seus ídolos vergonhosos, e matou os seus filhos em sacrifício aos ídolos. 37 Por causa disso, eu vou reunir todos os seus antigos amantes, tanto os que você apreciava como os que detestava. Eu os colocarei ao seu redor, em círculo; então arrancarei a sua roupa, e eles verão você nua. 38 Eu a condenarei por adultério e assassinato e na minha ira e furor vou castigá-la com a morte. 39 Vou entregá-la a eles, e eles derrubarão os altares onde você se entregava à prostituição e onde adorava ídolos. Eles levarão as suas roupas e as suas joias e a deixarão completamente nua.
40 — Eles vão atiçar a multidão para apedrejá-la e com as suas espadas cortarão você em pedaços. 41 Eles destruirão com fogo as suas casas e deixarão que muitas mulheres vejam o seu castigo. Farei com que você deixe de ser prostituta, farei com que deixe de dar presentes aos seus amantes. 42 Aí o meu furor passará, e eu me acalmarei. Não ficarei mais irado, nem terei ciúmes. 43 Você esqueceu como eu a tratei quando era moça e me deixou irado com todas as coisas que fez. Foi por isso que a fiz pagar por tudo. Por que é que, além de todas as coisas nojentas que você fez, ainda foi imoral? Eu, o Senhor Deus, falei.
Tal mãe, tal filha
44 O Senhor Deus diz o seguinte:
— Jerusalém, os outros usarão este provérbio a respeito de você: “Tal mãe, tal filha.”
45 — De fato, você é a filha da sua mãe. Ela detestava o marido e os filhos. Você é como as suas irmãs, que odiavam os seus maridos e os seus filhos. Você e as cidades que são suas irmãs tiveram mãe heteia e pai amorreu .
46 — A sua irmã mais velha é Samaria, no Norte, com os povoados que ficam ao seu redor. A sua irmã mais moça, com os seus povoados, é Sodoma, no Sul. 47 Por acaso, você se contentou em seguir os passos delas e em imitar as coisas nojentas que elas fizeram? Não! Em pouco tempo, você se tornou mais imoral do que elas em tudo o que fazia.
48 — Jerusalém, juro pela minha vida — diz o Senhor Deus — que a sua irmã Sodoma e os povoados que ficam ao seu redor nunca pecaram tanto quanto você e os seus povoados. 49 Sodoma e as suas filhas eram orgulhosas porque tinham muita comida e viviam no conforto, sem fazer nada; porém não cuidaram dos pobres e dos necessitados. 50 Elas foram orgulhosas e teimosas e fizeram as coisas que eu detesto; por isso, eu as destruí, como você sabe muito bem.
51 — Samaria não cometeu a metade dos pecados que você, Jerusalém, cometeu. Você fez coisas ainda mais vergonhosas do que as suas irmãs Sodoma e Samaria fizeram. Elas até parecem inocentes quando a sua corrupção, Jerusalém, é comparada com a delas. 52 E agora você terá de suportar a sua desgraça. Os seus pecados são mais graves do que os das suas irmãs, tanto que elas até são inocentes em comparação com você. Agora, Jerusalém, fique envergonhada e aguente a sua humilhação, pois você faz com que as suas irmãs pareçam puras.
Sodoma e Samaria voltam a ser o que eram
53 O Senhor Deus disse a Jerusalém:
— Vou trazer progresso de novo para as suas irmãs: para Sodoma e os povoados que ficam ao seu redor e para Samaria e os seus povoados. E vou fazer com que você também prospere. 54 Você terá vergonha de você mesma, e a sua desgraça mostrará às suas irmãs que elas estão em muito boas condições. 55 De novo haverá progresso para elas, e você e os seus povoados também serão reconstruídos. 56 No seu orgulho, você zombou de Sodoma, 57 antes de ser descoberto o mal que você fazia. Agora, você se tornou igual a Sodoma: zombam de você os edomitas, os filisteus e os seus outros vizinhos que a odeiam. 58 Você precisa sofrer pelas coisas imorais e vergonhosas que fez. Eu, o Senhor, falei.
Uma aliança para sempre
59 O Senhor Deus diz:
— Jerusalém, eu a tratarei como merece, pois você quebrou as suas promessas e não respeitou a aliança. 60 Mas eu manterei a aliança que fiz com você na sua mocidade e farei com você uma aliança que durará para sempre. 61 Você lembrará do que fez e ficará envergonhada de receber de volta a sua irmã mais velha e a sua irmã mais moça. Eu as darei a você como se fossem filhas, embora isso não fizesse parte da nossa aliança. 62 Renovarei a aliança que fiz com você, e você ficará sabendo que eu sou o Senhor. 63 Eu perdoarei todas as coisas más que você fez, porém você lembrará delas e ficará envergonhada demais para dizer qualquer coisa. Eu, o Senhor Deus, falei.

Comentário devocional:

Neste capítulo temos a mais longa alegoria de toda a Bíblia. A prostituição é a metáfora mais frequente nesta alegoria e, através dela, a infidelidade de Jerusalém ao Senhor é comparada à imoralidade de uma prostituta. A figura da prostituta, espiritualmente falando, é recorrentemente usada no Antigo Testamento para se referir à prática de Israel de seguir a outros deuses. Palavras como prostituição, promiscuidade, lascívia, depravação, imoralidade, são usadas muitas vezes neste capítulo para descrever a falta de fidelidade de Judá a Deus. 

A história de Jerusalém, narrada como um conto figurativo de uma menina que nasce e cresce até a maturidade, é apresentada para expor os pecados de Israel. Esta menina não havia nascido em uma família carinhosa normal*; não havia recebido os cuidados que um recém nascido obtinha no antigo Oriente Médio (v. 3-5). Cortar o cordão umbilical, a lavagem com água, esfregar com sal, envolvimento com panos – eram práticas de parteiras palestinas que têm sido observadas entre os camponeses árabes modernos. 

Depois de estabelecer a Sua aliança, o Senhor transformou Jerusalém de uma existência marginalizada a uma propriedade real (banhada, vestida, adornada, v. 9-11), apta a ser uma rainha (v. 13). A fama de Jerusalém se espalhou entre as nações, o que aponta para o esplêndido reinado de Israel na época de Salomão. Entretanto, confiou em sua formosura e se entregou à imoralidade espiritual (v. 15-59), a ponto de se tornar mais depravada que Sodoma e Samaria (v. 46-48).

Por incrível que pareça, apesar da longa história de maldade de Jerusalém, a alegoria deixa claro que Deus não a rejeitará para sempre (v. 60-63). Seu cativeiro vai acabar e Deus vai honrar sua antiga promessa de restabelecer a Sua aliança com ela, torná-la pura novamente, protegê-la e elevá-la. Israel será perdoado e declarado justo novamente.

A alegoria aponta também para o fato de que, além da restauração de Jerusalém, Deus um dia perdoará muitas outras pessoas de seus pecados, e que Ele acabará por estabelecer uma existência onde a justiça prevaleça e a rebelião contra Ele não mais existam.

É encorajador perceber que, se estamos em Cristo, já vivemos nessa “aliança eterna”. Nosso futuro lar é a Nova Jerusalém, que vamos alegremente habitar em cumprimento desta promessa de fidelidade da parte de Deus. Lá não haverá nenhuma das abominações – arrogância, materialismo, idolatria – que causaram morte e desolação (espiritual e literal) nos dias de Ezequiel. Mas será novamente a morada de Deus com o Seu povo, um verdadeiro lar eterno para os santos. 

Este final feliz para a alegoria, entretanto, não é a única parte que tem significado para nós. A história do pecado de Jerusalém é também um espelho do nosso próprio estado passado. Quando pecamos, estávamos nos voltando contra Deus, que ama e cuida de nós; nos fizemos indignos de Seu socorro. 

Quando O ignoramos e até mesmo nos rebelamos abertamente contra Ele, imitando aqueles que admirávamos no mundo, não agimos melhor do que a prostituta Jerusalém. Fizemos assim porque não admiramos e imitamos o Filho de Deus. 

No entanto, sempre houve uma esperança para nós, porque Deus ainda nos ama. Não importa quanto tenhamos nos degenerado, nunca estamos tão longe que não possamos ser resgatados, bastando responder pela fé ao chamado de Deus.

Pr Mohanraj Israel
Universidade Spicer, Índia