domingo, 4 de outubro de 2015

O MUNDO INVISÍVEL DE UMA MULHER - Página 3

Em abril do mesmo ano, tínhamos acabado de almoçar juntos, como disse no início, não desgrudávamos para nada, eu subi para voltar ao trabalho, que por sinal era uma jornada de quase 12 horas diárias, com parada de 15, 20 minutos para o almoço, e ele ficou no playground conversando e fumando, era o momento relax dele.
Algum tempo depois, quando ele voltou, precisando de ajuda, era ele desta vez que estava sentindo o que senti.
Meu coração apertou algo está errado... Muito errado, pensei. O chamei para consultar o mesmo médico plantonista que cuidou de mim, no Hospital Evangélico. E assim fizemos, consulta normal, mesmos exames, ecocardiograma, e tudo feito dentro do hospital, mas ao retornamos com os resultados, analisando o de sangue, o médico pediu outros, inclusive um raio-X do pulmão, algo me dizia que tinha pressa, precisávamos correr.
No raio-X, apareceu uma mancha no pulmão do lado direito e mandaram que procurássemos um pneumologista, e o inferno começou... Depois de tomografias computadorizadas e biopsias detectou o câncer, mas a célula apresentada não era uma célula proveniente do pulmão, e onde estaria este tumor? No cérebro já havia 18 metástases e de acordo com o médico oncologista, a mancha apresentada na radiografia do pulmão também era uma metástase.
É tão difícil falar sobre isso... Sempre tenho que parar...
Passamos um bom tempo no hospital, as metástases no cérebro já haviam atingido os seus movimentos e a pressão do mesmo deveria ser controlada com medicamentos. Vários exames foram feitos, até aonde elas haviam se espalhado? Durante este período tivemos a companhia de familiares, da minha parte, minha irmã, da parte dele contra sua vontade o seu filho, depois de alguns acontecimentos entendi o porquê, mas não quero e nem vou entrar em detalhes, por amor a uma pessoa que eu nunca machucaria com minhas palavras nem revelações.
Passamos momentos felizes dentro daquele quarto, por incrível que pareça, precisávamos manter nossa fé e nossa esperança,  sorrindo, esse foi o único modo que encontrei para manter essas duas chamas acesas. Lá encontramos o Sr Raimundo, logo fizemos amizade. Sempre que eu chegava tinha que dar um beijo na testa dele, depois eu ia beijar minha vida.
Eu e minha irmã, nós duas cuidávamos dos dois, eles precisavam de ajuda para ir ao banheiro, tirar os talheres das embalagens... Nosso quarto era o mais visitado e muitas vezes as enfermeiras chegavam à porta para nos dizer que seriam forçadas a nos pedir pra sair, tamanha algazarra... (risos).
Ele não sabia tudo o que estava acontecendo dentro dele, escondi algumas informações. Louco para vir pra casa, até que o médico deu alta, Sr Raimundo já havia saído, uns dois dias antes.
Não pude ir busca-lo, estava no escritório, às contas venciam e eu precisava cuidar destes detalhes, a minha maior preocupação era pagar o plano de saúde, se com ele estávamos enfrentando tantos problemas, imagina sem ele, e fazer o depósito na conta da sua ex-mulher, ele a ajudava, de vez em quando chegava emails pedindo para não esquecer pois a prestação do carro estava para vencer, a separação dele foi complicada, litigioso, chegou aqui em Salvador com trinta reais no bolso,  mas mesmo assim ele nunca deixou de ajudar a família, mas Deus botou uma pessoa maravilhosa no caminho dele, e eu sei que ele a amou demais, falamos sobre isso depois.
Voltando ao assunto, quando minha irmã ligou, pedindo que eu fosse pra casa, o filho dele o entregou o laudo médico na porta do hospital, foi neste dia que ele ficou sabendo de fato o que estava acontecendo, de toda a verdade, não entendi o que houve, o porquê de tamanha crueldade. Saí correndo e peguei um táxi, foi ele segurando nas paredes para se apoiar quem abriu a porta pra mim, com os olhos cheios de lágrimas , me disse: Você sabia? O abracei e respondi que sim... eu sabia, e mais uma vez outra pergunta, como você estava aguentando tudo isso? Olhando dentro dos olhos dele sem enxergar, pois também chorava, respondi... FÉ.
E falando em fé lembrei, quando ele saiu da sala de cirurgia, no dia da biopsia, ele me contou muito emocionado que esteve no colo de Jesus com detalhes, e que aquele dia dos 60 anos de vida que ia fazer, tinha sido o dia mais feliz da vida dele, e que eu não entenderia por mais que tentasse explicar. Isso criou uma tremenda confusão, eu acreditei que ele viveu o que me contou e o filho dizia que foi efeito de drogas me levando a questionar o médico, eu queria respostas, e confirmar minha certeza. Ele não havia tomado nenhum tipo de droga, a anestesia para o procedimento foi local, e o médico ainda acrescentou, que não podia falar pra todo mundo, mas que ele não tinha dúvida que tudo aconteceu exatamente como ele havia me contado.
Fiz de tudo para convencê-lo a se tratar em São Paulo, lá poderia ter mais recursos, sei lá um milagre... Mas ele foi radical chorando falou... Não, por favor, não deixe ninguém me tirar de perto de você... Sem você eu morro.
Agora só tínhamos nós dois, e precisávamos começar o tratamento da quimioterapia e radioterapia, a radioterapia fizemos umas três seções, aguardávamos o plano de saúde liberar os medicamentos da quimioterapia. Já havia sido feita a cirurgia para implantar um cateter, um tubo especial que é inserido numa veia maior para facilitar o tratamento quimioterápico, evitando punções repetidas para conseguir acertar uma veia. Fizemos apenas uma seção.
Em casa, com horários rígidos para tomar os medicamentos foi difícil, eu tinha que continuar o trabalho no escritório, o mundo não parou... Não? Eu achava que devia, mas não parou. Acordava às quatro da manhã para estar lá no máximo as seis, antes de meio dia precisava retornar para aprontar o almoço, e mesmo que eu tivesse alguém para me ajudar, ele não queria comer, esperava por mim. E as coisas foram se complicando, cada dia ficava pior para nós. Ele não conseguia comer, beber água, dormir, sentia muitas dores, vinte e quatro horas ele me chamava... benhê... Essa palavra soou aos meus ouvidos ainda por um bom tempo depois.
Vinte e três dias sem conseguir dormir, muito inquieto, com os movimentos dos braços e pernas comprometidos, eu receava deixa-lo só e acontecer um incidente agravando a nossa situação.
A dor aumenta na medida em que descrevo o que vivi. Um filme de longa metragem com cenas detalhadas é o que vejo agora, dói , acabo pulando detalhes para não piorar e desistir... Preciso continuar.

Assim, sem dormir, sem me alimentar, estava morrendo junto com ele, mas eu não perdia a fé, achava ser merecedora de um milagre, afinal de contas durante quase oito anos abri mão de ser mulher por amor, ele era minha vida. Como uma história dessa poderia terminar assim?

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