segunda-feira, 5 de outubro de 2015

O MUNDO INVISÍVEL DE UMA MULHER - Página 4

As dores aumentando, pedimos ao médico ajuda, ele precisava descansar e eu também. Fomos juntos ao hospital, ele queria vê-lo, conversamos, contamos tudo o que estava acontecendo e ele nos deu uma receita de um sedativo... Chorando falei que não ia  adiantar, eu já conheço as reações só vai deixa-lo mais agitado. Ele respondeu que fazia cirurgias com o uso daquele medicamento. Sem ter mais como argumentar, afinal de contas ele era o médico, passamos na farmácia, compramos e fomos para casa. Como sempre respeitando os horários aguardei o tempo certo para medica-lo, como eu previa, não fez efeito, e pra ser sincera piorou a minha situação, pois ele realmente ficou mais agitado.
Eu a esta altura sem forças, contratei nesta noite uma pessoa para me ajudar, pois temia desmaiar, meu corpo exausto já não aguentava mais. E mais uma noite passamos em claro, tentei me esconder, coloquei um travesseiro debaixo da mesa e deitei, enquanto a moça fazia companhia e conversava com ele, ele perguntava e chamava por mim. Eu, em lágrimas sai de onde me escondia o abracei e disse: eu estou aqui. Vejo os olhos dele agora brilhando quando me viu. A cena se repete em minha memória.
O dia amanhecendo e a dor piorando, neste dia a dor era no peito, exatamente onde estava o aparelho da quimioterapia. Ele gritava, eu entrei em pânico sem conseguir ligar para o médico, desesperada acabei conseguindo e ele mandou que eu o internasse imediatamente. Chamei um táxi, eu não dirigia, ele já não conseguia mais andar, agressivo, efeito do remédio, demos entrada no pronto socorro e levaram-no direto para a UTI, eu aguardava sentada no jardim. Horas depois uma médica saiu da sala e disse-me: “fizemos tudo o que podíamos, agora está nas mãos de Deus”. Lembro que liguei pra minha irmã e a única coisa que eu conseguia dizer era, ele está morrendo...
Horas se passaram, ele começou a reagir, algumas vezes eu levantava e ia até a porta, com as entradas e saídas dos médicos, parecia uma cena de um filme, vi quando tentavam reanima-lo com choques.
A eternidade bateu em minha porta naquele momento, eu ainda não conhecia o sentido real dessa palavra.
Ele reagiu, mas quando subiram as máquinas o acompanhou, ele apenas mudou de quarto. Internado na UTI Cardiológica, ficando lá vinte e poucos dias, foi quando a irmã dele, o cunhado e a minha irmã vieram ficar comigo.
Já não sabia que dia era da semana, do mês nem em sonho, pude deitar o meu corpo.
Os horários das visitas eram controlados e eu sentia uma grande tristeza ao deixa-lo, e ao mesmo tempo alívio, pois eu já não aguentava mais o nosso sofrimento... Sim, não tenha duvidas, literalmente morremos juntos.
Um dia no final da nossa visita, o médico chefe do plantão me chamou e disse que eu teria que tomar uma decisão, teria que escolher um dos dois procedimentos, pois ele não sairia mais de lá. A Traqueostomia ou a intubação, o chão desapareceu debaixo dos meus pés, não sabia o que fazer, chamei a minha irmã e a minha cunhada e fui atrás do médico dele, quando entrei na sala, ele já estava me esperando e sabia o que estava acontecendo, nos perguntou o que tínhamos resolvido... fiquei muda, e a minha cunhada respondeu, Rosinha que tem que decidir ( é assim que ela me chama), é a mulher dele. Não podemos jogar esse peso nas costas dela, ele disse e continuou,  ela não tem que decidir nada, mas como é ela quem mais o conhece aqui, ela vai me dizer qual era a vontade dele. E a imagem me veio, de quando estávamos indo para o escritório, ele não mais falou em ser enterrado no túmulo da minha família, com os olhos lacrimejando,  ele me disse: não me deixe dependendo de máquinas para viver e por último, tenho medo de ser enterrado vivo, benhê posso te pedir mais uma coisa? Deve ser caro, mas se eu morrer você me crema? Retornei das minhas lembranças, e a decisão já estava tomada, seda-lo e esperar o momento, num ato de desespero perguntei, Doutor mas Deus ainda pode fazer um milagre não pode? Ele respondeu,  sim, nós é que nada mais podemos fazer, mas Ele pode tudo.
Dia 24 de setembro de 2013, eu já não tinha mais forças, já não suportava vê-lo daquela maneira, mesmo sedado conversava com ele, lágrimas caiam me dando a certeza que ele me ouvia enquanto eu dizia, benhê, nossa história não acabou, e nem acabará aqui.
Neste dia desci, tirei um café na máquina e sentei no chão em frente ao pronto socorro do hospital, acendi um cigarro e ali começou a minha conversa com Deus, onde questionei o seu amor, será que Ele não enxergava o sofrimento desse filho que Ele tanto amava? Se enxergava e amava por que deixa-lo daquela maneira, se era por minha causa e por causa dos meus pedidos, eu estava abrindo mão, em voz alta disse, chega, pode levar...
No dia 25 chegamos mais cedo para a visita, mas não aconteceu, já me aguardavam médicos, psicólogo, levaram-me para uma sala e me disseram a hora do óbito e como aconteceu. Não ouvi uma palavra, apenas lembrei do fato do dia anterior, da nossa conversa, sim, eu e Deus, pensei, foi um monólogo, mas Ele me ouviu...



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