segunda-feira, 13 de outubro de 2014

A Decepção - Agenivaldo Almeida


A decepção é um sentimento negativo que acontece de muitas maneiras na vida de uma pessoa.
Ela pode acontecer na forma de dor, tristeza, perda, frustração, desvalor angustia e a mais comum aborrecimento por alguma questão.
Existem pessoas que se decepcionarem com amigos, parentes, pai, mãe, irmãos, namorados, noivos e um amor perdido. Outros perderam um jogo, ou seu time preferido, ou mesmo uma coisa simples da vida que lhe frustraram e tornaram-se decepcionadas.
Geralmente o sentimento de decepção traz consigo mágoa, tristeza, e o mais comum um sentimento de revolta pela dor causada.
Uma pessoa decepcionada pode sofrer mesmo calada, mas dentro de si este sentimento pode causar uma ferida profunda e esta decepção faz com que a pessoa tenha ressentimentos pelo fato de ter tido a decepção. Em alguns casos de decepção a pessoa deseja vingança que um sentimento, perverso e mal. Todavia para alguns a decepção pode ser uma lição apreendida e com isso novas perspectivas de vitória chegarão Algumas pessoas decepcionadas por algum motivo têm a tendência de guardar no coração a decepção e alguns casos vivem-se em lastimas, lembrando do passado e dá dor que causou sua decepção.
Geralmente o maior fluxo de decepção é causado por relacionamentos e de um amor ferido. Nesse caso a dor é maior e traz profunda raiz de solidão.
Quantas vezes sonhamos, e desejamos ser feliz com a pessoa que amamos, mas de repente uma decepção invade a vida da pessoa. Quantas vezes desejamos ser amados, mas ao invés disto nos decepcionamos pelo fato de não sermos amados.
Quantas vezes desejamos uma palavra de carinho e de afeto e recebemos palavras dura como pedras, afiadas como espinhos. Quantas vezes desejamos dar amor e recebemos em troca, ódio e rancor. Quantas vezes desejamos um abraço apertado, do sentimento de amor e carinho e recebemos a indiferença fria como o mármore. Quantas vezes desejamos a verdade e recebemos em troca a falsidade, que corroe como um câncer maligno.
Quantas vezes desejamos um presente no nosso dia de aniversário, ou qualquer outra data, mas nem a lembrança deste momento nós é falado, tristeza e decepção são os presentes que ganhamos.
Quantas vezes desejamos uma palavra de elogio, e recebemos uma palavra de baixa estima que destrói e causa dor e decepção. A palavra é como um bálsamo para a alma, mas também é como um vinagre para os ossos, assim é a palavra de vida para a vida e palavra de morte, que causa dor e decepção. Quantas vezes desejamos um aperto de mão, e recebemos uma bofetada. Cada atitude fala mais forte, ou pode destruir por causa da decepção. A decepção é fria e destrutiva, retrata o sentimento mais amargo do coração do homem.
Um beijo que não é dado, um abraço que não foi abraçado, um adeus que não foi dado, pode de alguma maneira trazer uma grande decepção. Uma traição pode trazer raízes de sofrimentos profundo, decepções amorosas são como ferro, que afia o próprio ferro, doe na alma,corta e dilacera o coração. A relação de um amor ferido, uma amizade quebrada pode trazer sérias decepções. Decepcionar-se com alguém é trazer para dentro da alma a falta de perdão, e de carinho, é o sentimento gelado como o frio do inverno. Decepção é a palavra que doe que fere cada sentimento do coração humano. Ninguém deseja ser decepcionado, mas quando isto acontece, o sentimento egoísta, mesquinho de só pensar em si mesmo não deixa a pessoa ser feliz.
Sonhamos e desejamos ser felizes, e cada momento de nossas vidas fazemos planos e desejamos a conquista, mas então vem a tragédia, um, porém, uma decepção. Os sonhos se vão, os desejos se acabam a felicidade vai-se embora, e somente o sentimento de solidão que se acomoda no coração decepcionado.Olhar para alguém e ver o quanto é linda e maravilhosa, mas com os dias passando,descobre-se que o sentimento era nobre, já não passa de algo triste e vazio. Alguém poderia ser a razão da vida, mas com a dor da decepção, torna-se um momento de frustração e ilusão. Do olhar sereno e meigo, apenas um olhar frio,cálido, como a vida que se vai.
Olhar para dentro de nos, muitas vezes decepcionamo-nos com nós mesmo, mas todos de alguma maneira podem nos decepcionar, mas somente o amor de Deus não decepciona o homem.
O amor de Deus preenche este sentimento de decepção. Este amor faz com que tudo ao redor tenha vida. O amor de Deus traz cura para a ferida da decepção. O amor de Deus sara a alma cansada. Só o amor de Deus é a solução para a decepção, Só este amor resolve toda a dor, todo mal de toda decepção, este amor dá vida, da vitória.

Agenivaldo Almeida Silva

domingo, 12 de outubro de 2014

A vida num instante

 
De um momento para o outro a nossa vida muda. Estamos em mudança constante. De um segundo para o outro perdemos pessoas importantes na nossa vida, e por vezes basta um instante para encontrar alguém por quem temos andado a procura a vida toda, e ainda mais um segundo para voltar a perder, para depois conquistar novamente. As mudanças do ciclo de vida são das mais variadas que se pode imaginar. Umas são para melhor. Outras são para pior. Mas todas eles fazem parte da vida. Umas por vezes não custam nada, mudar de estilo, mudar de pensamentos, mudar de emprego. Outras estão rodeadas de sofrimento. Mudar de pais, mudar de amigos, mudar de amores.
Que acontece quando somos confrontados com estas mudanças e nada podemos fazer para o impedir? Sofremos naturalmente. Mas esse sofrimento fornece a energia necessário para viver. De certo modo sofrer faz com que exista uma vontade de procurar uma situação melhor. E isso implica mais uma mudança. Isto é, na realidade um ciclo vicioso, onde a única forma de o travar é a monotonia. E quem gosta disso? Ninguém. Por isso temos mais é que aceitar estas mudanças. Porque, quer se aceite, quer não, a vida é um instante muito breve onde de um momento para o outro acontece mais uma mudança que não podemos controlar. A morte. A mudança suprema, aquela em que passamos de um mundo para o outro, e não levamos nada conosco, apenas deixamos. Deixamos as recordações com que os vivos ficam de nós, e até essas recordações tem data de validade associada mais uma vez a morte.
Por isso, não devemos tentar fugir as mudanças que cruzam o nosso caminho, mas sim enfrentar cada uma delas com coragem e com a ideia que essa mudança pode ser para melhor.

"A vida são dois dias, o de ontem já passou e o de hoje está a acabar. Amanhã está no incerto. Aproveitam cada nova oportunidade."
 
Marcio Peralta
Fonte: Pequenos Textos

Vínculos e maturidade afetiva

 
Um dos maiores sofrimentos em nossa maneira de nos relacionarmos são as sérias dificuldades na comunicação. O crescimento emocional e a maturidade afetiva são a base das relações saudáveis e de uma sociedade madura. Na verdadeira comunhão aconchega-se a mudança mais potente.
“Em nossa sociedade contemporânea, o ser humano se vê cada vez mais privado do reconhecimento essencial que implica a confirmação afetiva de sua existência” (Frans Veldman).
A vida afetiva humana, com suas interações, relações e sua problemática intrínseca, é a trama que sustenta o mundo em todas suas esferas, tanto privadas como públicas. No entanto, as potencialidades afetivas são frequentemente asfixiadas, subestimadas, descuidadas, quando não ignoradas. Amadurecer e crescer são, antes de mais nada, tarefas individuais, e seu reflexo mais fiel se projeta no espelho da sociedade.
Não se pode evoluir e crescer como ser humano íntegro sem desenvolver e amadurecer emocionalmente. Não há sociedade madura sem indivíduos íntegros. A imaturidade política, social e educativa que rege nossa cultura é expressão da imaturidade emocional dos indivíduos que a integram; sob a aparência de adultos, a grande maioria são seres que evolutivamente mal superam a infância precoce ou a puberdade (1).
Desenvolver o núcleo mais íntimo de nosso ser, desenvolver a própria identidade como a capacidade de formar e manter relações, constituem as propriedades mais importantes de todo ser humano.
Identidade e alteridade são as duas caras de uma dimensão primária da existência humana. Se um ser se transforma realmente em adulto, se a pessoa atinge certa liberdade, é também livre em seus comportamentos e isto implica uma fluidez de papéis e responsabilidades nas relações interpessoais. A capacidade de amar profundamente e estabelecer autênticas relações humanas é imprescindível.
Também somos capazes de criar diferentes tipos de relações e estas adquirem muitas formas: relações superficiais e sem um verdadeiro contato, modelos de dependência nos vínculos que bloqueiam a individualidade ou distorções e perturbações na comunicação.
Mas o mais importante passa inadvertido: psicologicamente, continuamos prolongando a precoce dependência emocional da infância, e com essa profundidade psíquica encaramos o mundo e a própria vida. É complexo viver, mas a maior parte da pena e do conflito é consequência direta do estado de imaturidade psicológica em que nos encontramos e que nem sequer é advertida como tal.
 Se o destino natural de todo ser humano é crescer e amadurecer: por que se torna tão difícil atingir uma verdadeira maturidade afetiva? Muitos nem sequer se propõem isso; vivem tão ocupados em atingir o sucesso, o poder, o dinheiro e o reconhecimento, projetos meramente externos, que nunca conseguem relacionar suas ânsias e suas angústias profundas com a falta de crescimento afetivo e espiritual. E muitos outros guardam o desejo de amadurecer e evoluir, mas são muitos os obstáculos que encontram, e confundidos, frustrados ou resignados, claudicam na busca interior ou acabam consumindo fórmulas mágicas e alheias que, inevitavelmente, afastam e desviam do próprio caminho vital.
A vida é um drama formativo; drama entendido como o desenvolvimento de experiências vitais e simbólicas que marcam a passagem de uma etapa a outra de maior maturidade, de integração e autoformação.
“Os jovens sabem que, para honrar a vida que seus pais lhes deram, devem deixar o pai e a mãe, ir ao encontro da sociedade e, longe da casa paterna, assumir sua feminilidade ou sua virilidade” (Françoise Dolto).
O caminho do amadurecimento é um processo de diferenciação e individuação psicológica; para crescer e amadurecer como verdadeiros seres livres e íntegros é necessário separar-se emocionalmente dos pais. Nenhum ser humano pode ser atributo, objeto ou complemento submetido à dependência de outro.
Quantos filhos estão fechados ao seu próprio desejo e vitalidade por pais que os pressionam com solicitação abusiva e mandatos esclerotizantes (2). O maior dom que os pais —verdadeiros ou substitutos— podem brindar aos filhos é separar-se e diferenciar-se deles — “cortar o cordão umbilical”— para que possam ter acesso a sua própria identidade, a um desenvolvimento emocional individual.
Não só os filhos devem “deixar o pai e a mãe”, são os pais, sobretudo, é que devem deixar os filhos irem embora. Alguns pais, muito poucos, permitem o crescimento e a abertura à vida, mas a grande maioria, devido às estruturas familiares rígidas e às carências emocionais próprias, freiam o processo natural de separação e diferenciação de todo crescimento.
Deste modo, cresce na tensão e na culpa e, sem saber, sob um estresse crônico que será a base de muitas relações emocionais perturbadoras. A maioria das pessoas continuam sendo psicologicamente filhos –“os filhos da infância”– e a maioria dos pais continuam exercendo o papel de “pais da infância”. Assim, a relação entre pais e filhos permanece ancorada nos primeiros anos infantis ou, no melhor dos casos, na adolescência (3).
A imaturidade da relação entre pais e filhos continua vigente ao longo da vida —por isto continua sendo uma relação conflitiva— e se projeta em todas as áreas do mundo adulto. Em grande parte da sociedade os papéis que os adultos cabais deveriam exercer estão nas mãos de “meninos dependentes” ou “adolescentes desenfreados” emocionalmente —ainda que em aparência possuam atributos de poder e autoridade—. Queremos realmente amadurecer? Do ponto de vista físico, não temos outra opção, mas quanto ao psicológico e espiritual, podemos decidir deter-nos, não atravessar o próximo portal e, se aparentemente avançamos, num nível mais profundo dizemos “não”.
Cada etapa concluída é o fundamento da seguinte. Confiar nos tempos da vida e em suas oportunidades para crescer e amadurecer nos proporciona a segurança básica e fundamental para viver.
Quando nos transformamos em adultos? Quando encontramos em nós mesmos nossa verdadeira fonte de vida e criatividade; quando chegamos a ser nossa própria mãe, nosso próprio pai e, portanto, nosso próprio filho. Se formos suficientemente livres, autônomos e fortes, aprendemos a relacionar-nos de um modo mais saudável e maduro, sem criar dependências nocivas e ataduras.
 
Ángela SannutiEscritora Argentina. Artigo publicado na revista Criterio, www.revistacriterio.com.ar 

Sabe....


Sabe, hoje eu precisei tomar um choque, no sentido figurado da coisa é lógico, pra entender certas coisas...
Precisei entender que a vida passa e eu vou passar junto com ela...
afinal eu não sou desta terra, eu ESTOU nesta terra.
Precisei entender que as pessoas vão me amar, mas muitas delas não vão gostar de mim,é a lei natural das coisas, não se pode agradar Gregos e Troianos ao mesmo tempo.
Precisei aprender que as coisas não vem de graça.. se eu quiser vou ter de batalhar e desejar de todo coração que elas aconteçam.
Precisei aprender que amigos são e sempre serão um porto seguro, mas quem eu poderei chamar de amigo hoje?
Precisei aprender que as pessoas tem o direito de se relacionarem...
e eu não posso impedir que a pessoa que eu amo se relacione com as demais, pois é assim que ela saberá o valor da minha pessoa pra ela.
Precisei aprender que nada vai acontecer do jeito que eu quero, se eu não fizer algo pra mudar o que me incomoda, e querer mudar as pessoas é ser burro duas vezes, primeiro que ninguém muda porque EU quero, e segundo porque antes de mudar os outros preciso mudar a mim mesma.
E por fim precisei aprender que a vida é curta, as pessoas são passageiras e eu preciso dar a todos que cruzam o meu caminho o melhor de mim, preciso que as pessoas vejam em mim um suspiro de paz e esperança, preciso mostrar que amigos existem e que a vida não é uma eterna lamúria, mas pode se transformar numa calma e doce canção, conforme a sua e a minha vontade!!!

Maria Rita Avelar

Obs: Para postamos algo que uma outra pessoa escreveu, precisamos ao menos ler....
"Preciso dar a todos que cruzam o meu caminho o melhor de mim"....  Qual a tua verdade???? Quem de fato tu és? Viver sem máscaras pode ser complicado, talvez além da tua capacidade humana... mas é prazeroso... nos dá PAZ... tenta! pelo menos TENTA!

Quanto mais eu rezo....


Sabe aquela história de “quanto mais eu rezo, mais assombração me aparece”? Já teve essa impressão?
Ela pode se projetar de outra forma, como aquele que diz: “estranho, na mesma proporção que me sinto mais aberto, mais perceptivo, mais consciente, mais dificuldades surgem no meu caminho.” – Você já pensou assim?
Acontece que quanto mais atentos ficamos mais sensíveis e quanto mais sensíveis, mais claro tudo vai ficando, inclusive as pedras e obstáculos do nosso próprio caminho. Se antes não víamos, agora vemos! Não é que as dificuldades aumentam, mas agora você as discerne, enxerga o que antes não via e isso é bom!
Uma vida de absolutas facilidades, com caminhos plenamente estáveis, nos cauterizaria a consciência. Enxergar seus limites, lidar com suas fraquezas e superá-las é parte essencial do caminho de qualquer um que almeja a maturidade.
Ninguém cresce se não encarar seus próprios fantasmas. Não há enraizamento de consciência sem confrontar-se, sem a oportunidade de passar pelos afunilamentos que nos melhora justamente por conta do exercício da experiência, pela chance de vencer um obstáculo e tornar-se uma pessoa melhor.
Se você sente que as “assombrações” aumentam na medida em que “reza”, ou que as dificuldades se aprofundam enquanto medita, ou que tudo parece ficar mais difícil enquanto intimamente tem evoluído, prossiga com felicidade e atenção.
Faz parte do caminho. Não estamos em buscas de facilidade, mas de maturidade e a maturidade se constrói com o desenvolvimento de nossa capacidade de superar dificuldades, sair mais forte na outra ponta, não temer as “assombrações”, mas enfrentá-las e vencê-las.
É consciência que queremos e se há necessidade de desconstruções, de encaramentos e ajustes na maneira de enxergar, repito, prossiga com felicidade e atenção, afinal, não é que as coisas pioraram, simplesmente agora você as enxerga. O que fará com isso é escolha sua.

Flavio Siqueira

Não me subestime!

Não me subestime!

Minha quietude e silêncio não são demonstrações de desatenção. Ao contrário disso, aprendi que no silêncio de meus lábios há um estado de atenção que somente os quietos compreendem!
Não estou desprotegida.
Em minha solitude há um escudo dourado que me cuida das flechas invisíveis que me chegam! Há anjos em minha volta!
Estou atenta às lições do caminho. Mesmo que demoradamente, elas me são absorvidas e compreendidas!
Não me provoque.
Minha mansidão, não é descuido, é confiança!
Posso não te desejar o mal, mas devolvo todos os presentes que não me servem.
Sou calada, não cega!
Sou mansa, não boba!
Sou pacífica, mas tenho minhas defesas!
Não me julgue.
Venha, calce meus sapatos e caminhe com eles por 3 luas seguidas, assim saberá de mim mais do que imagina e não mais me julgará, pois conhecerá meu sentir e saberá do meu coração.
Falar de mim, diz mais sobre você do que sobre minha pessoa.
Abrigue-se em minha casa e conhecerá o acolhimento da minha alma.
Aqueça-se no sagrado fogo que queima em meu lar, e saberá do amor que trago no coração.
Conheça a menina que habita em mim, e sentirá a alegria do meu ser.
Respeite a anciã que me nutre, e certamente aprenderá sobre os mistérios que conheço!
Perceba a mulher que pulsa, e poderás sentar à mesa comigo!


Rose Kareemi Ponce

Eu sei, mas não devia...


Eu sei que a gente se acostuma. Mas não devia.
A gente se acostuma a morar em apartamentos de fundos e a não ter outra vista que não as janelas ao redor. E, porque não tem vista, logo se acostuma a não olhar para fora. E, porque não olha para fora, logo se acostuma a não abrir de todo as cortinas. E, porque não abre as cortinas, logo se acostuma a acender mais cedo a luz. E, à medida que se acostuma, esquece o sol, esquece o ar, esquece a amplidão.
A gente se acostuma a acordar de manhã sobressaltado porque está na hora. A tomar o café correndo porque está atrasado. A ler o jornal no ônibus porque não pode perder o tempo da viagem. A comer sanduíche porque não dá para almoçar. A sair do trabalho porque já é noite. A cochilar no ônibus porque está cansado. A deitar cedo e dormir pesado sem ter vivido o dia.
A gente se acostuma a esperar o dia inteiro e ouvir no telefone: hoje não posso ir. A sorrir para as pessoas sem receber um sorriso de volta. A ser ignorado quando precisava tanto ser visto.
A gente se acostuma a pagar por tudo o que deseja e o de que necessita. E a lutar para ganhar o dinheiro com que pagar. E a pagar mais do que as coisas valem. E a saber que cada vez pagará mais. E a procurar mais trabalho, para ganhar mais dinheiro, para ter com que pagar nas filas em que se cobra.
A gente se acostuma a andar na rua e ver cartazes. A abrir as revistas e ver anúncios. A ligar a televisão e assistir a comerciais. A ir ao cinema e engolir publicidade. A ser instigado, conduzido, desnorteado, lançado na infindável catarata dos produtos.
A gente se acostuma à poluição. Às salas fechadas de ar condicionado e cheiro de cigarro. À luz artificial de ligeiro tremor. Ao choque que os olhos levam na luz natural. Às bactérias da água potável.
A gente se acostuma a coisas demais, para não sofrer. Em doses pequenas, tentando não perceber, vai afastando uma dor aqui, um ressentimento ali, uma revolta acolá. Se a praia está contaminada, a gente molha só os pés e sua no resto do corpo. Se o cinema está cheio, a gente senta na primeira fila e torce um pouco o pescoço. Se o trabalho está duro, a gente se consola pensando no fim de semana. E se no fim de semana não há muito o que fazer a gente vai dormir cedo e ainda fica satisfeito porque tem sempre sono atrasado.
A gente se acostuma para não se ralar na aspereza, para preservar a pele. Se acostuma para evitar feridas, sangramentos, para poupar o peito. A gente se acostuma para poupar a vida. Que aos poucos se gasta, e que, gasta de tanto acostumar, se perde de si mesma.

Marina Colasanti