quarta-feira, 24 de setembro de 2014

O DIA


Rio - Convivendo muitas vezes com a impunidade e a morosidade da Justiça, parentes de vítimas que morreram de forma violenta no Rio têm encontrado alento no plano espiritual.
As chamadas cartas de consolo, psicografadas por médiuns, além de servir de alívio para a dor dos que perderam entes queridos, vêm sendo fontes de força e esperança para outras pessoas que enfrentam traumas semelhantes.
Zely Maria Vidal Leite Ribeiro, 66 anos, cujo filho, o gerente de banco Marcelo Vidal, foi assassinado com um tiro no pescoço numa emboscada supostamente armada pela própria mulher, há dois anos, transformou as cinco mensagens que diz já ter recebido dele em livretos. Os exemplares são distribuídos a outras mães enlutadas.
“Através do médium Rogério Leite, de Lorena (SP), meu filho prova que sua alma evolui a cada dia.
As mensagens me trazem paz, serenidade, compreensão”, diz Zely.
Evangélica, ela conta que, logo na primeira sessão, em 11 de julho de 2009, em meio a 150 pessoas, Rogério a chamou e psicografou uma carta com a assinatura “inconfundível” de Marcelo.

LEMBRANÇAS EM DETALHES

“Meu filho me elogiou por ter vencido o preconceito religioso e citou detalhes incríveis, como a bandeira do Flamengo colocada sobre seu caixão. Mencionou seu apelido de infância (Thundercat) e os nomes e apelidos dos amigos do time do qual era artilheiro. Hoje, ele continua sendo meu artilheiro, mas os gols são suas mensagens de amor”, afirma ela.
Em outra carta, Marcelo agradeceu a iniciativa da publicação em sua homenagem, citou a hora, o dia e o local onde foi assassinado, bem como o modelo e a placa do carro que usava. Também informou que estava bem e pedia para que a mãe confiasse na Justiça, sem, no entanto, guardar rancor de seus algozes.
“Já estão distantes os tempos em que a revolta e a indignação tomavam conta do meu coração”, psicografou na quarta mensagem. "Não fossem esses contatos, estaria louca num hospício”, destaca Zely.
Zoraide Vidal, 62 anos, mãe da policial civil Ludmila, assassinada aos 24 anos por três bandidos em 2006 — ela foi torturada e teve o corpo carbonizado em Imbariê, Duque de Caxias —, garante já ter recebido mais de 20 cartas psicografadas da filha. “São bálsamos de conforto para mim. Sinto emoções diferentes a cada mensagem. Elas instigam meu espírito de luta por justiça”, diz. No dia 2, na Cinelândia, ela será uma das líderes de uma caminhada pela instituição do Dia das Vítimas de Violência Urbana no Rio.
Francilene transformou o quarto do filho, o policial Thiago Castro, morto durante assalto, em um santuário

Cartas pedem confiança na Justiça

A fé de Francilene Pinheiro de Castro, 59 anos, é que mantém a certeza da constante presença espiritual do filho, o policial civil Thiago Castro, morto em 2006, aos 26 anos, durante um assalto em Cascadura. Desde então, ela diz ter recebido mais de 30 cartas de consolo do filho.
“Ainda mantenho o quarto dele, que transformei numa espécie de santuário. Ele só me dá notícias boas, alegrias, pois é muito extrovertido. Me contou que, junto com mais três policiais que também morreram violentamente, está preparando um livro com mensagens de solidariedade, que deverá ser escrito em breve através de Rogério”, detalha Francilene.
Segundo ela, Thiago está constantemente preocupado com a saúde dos parentes. “Na última carta, deu uma bronca no pai (Diraison, 68) , advertindo-o para fazer exame de próstata”, conta, sem conter o riso.
Andrea Siqueira, 43 anos, mãe de Thiago Oazen, executado em 2008 por PMs, já expulsos, em Jacarepaguá, se surpreendeu quando buscou contato paranormal com o filho, que tinha 19 anos. “Já recebi três mensagens. Ele pede que eu não sofra mais, pois os assassinos não conseguiram tirar o grande amor que sentimos um pelo outro”, afirma, emocionada.
Em outra carta, Thiago pede para que o pai, o empresário Sérgio Oazen, que é separado de Andrea, “confie na Justiça dos homens”. Inconformado com a lentidão do processo e ameaçado de morte, ele oferece R$ 10 mil para quem der pistas sobre o paradeiro de Luiz Carlos Cerqueira Ribeiro, um dos três acusados, considerado foragido. Os outros dois respondem em liberdade.
Médium: ‘O povo carioca tem uma aura boa’
Natural de Lorena (SP), o médium Rogério Leite, de 46 anos, vem regularmente ao Rio, sempre a convite de parentes de vítimas. Segundo ele, na cidade, boa parte dos contatos com as pessoas mortas já ocorre na primeira reunião, o que não costuma acontecer em outros municípios que visita.
“Fico feliz de poder ajudar a reconstituir pedaços das pessoas que sofrem grandes perdas. No Rio de Janeiro, apesar da violência, o povo tem uma aura boa, é unido. Isso ajuda muito na hora de se estabelecer os contatos com quem já não está mais entre nós”, afirma Rogério.
O médium conta que descobriu o dom da psicografia há dez anos, mas que desde os seis já percebia a presença de espíritos.

Amigo e admirador de Chico Xavier, Rogério instituiu a página http://www.cartasconsoladoras.com/ , onde explica como ajuda, através da mediunidade, a “enxugar as lágrimas das pessoas que perderam seus parentes e amigos”.

MENINO JOÃO HÉLIO AJUDOU A CRIAR GRUPO DE PAZ

Marcelo Vidal foi assassinado no dia 15 de abril de 2008 por três homens no Andaraí, na Zona Norte. Durante as investigações, a Polícia Civil descobriu que a mandante do crime seria a sua própria esposa, Anny Viana, na época com 29 anos. O motivo seria um seguro de vida que o bancário havia feito, no valor de R$ 380 mil.
“Se alguém por ganância desejar nos fazer o mal, fizeram a si mesmos”, psicografou Marcelo na quinta mensagem dirigida à sua mãe, Zely Vidal. O suposto atirador, conhecido como Galinha, foi morto dias depois do assassinato por traficantes.
Anny, que em depoimento na Justiça negou envolvimento no crime, e os outros dois acusados — os irmãos Sandro e Alessandro Tabachi de França — aguardam julgamento em liberdade.
As cartas de Marcelo Vidal foram recebidas por Zely na casa de Rosa Cristina e Elson Vietes, pais do menino João Hélio, que morreu aos 6 anos durante um assalto em 2007, em Osvaldo Cruz. Ele foi arrastado por sete quilômetros preso ao cinto de segurança. Rosa e Elson preferem não dar declarações.
O médium Rogério Leite, convidado várias vezes para ir à casa do casal, porém, ressalta que João Hélio sempre se comunica com os pais por meio da psicografia. “Foi o próprio João Hélio, por exemplo, que sugeriu a criação do grupo de paz ‘Amor Além da Vida’, que hoje ajuda parentes de vítimas a se reerguerem", diz Rogério.
Zely conta que sente a presença de Marcelo a todo momento. “Esses dias peguei um táxi e o condutor era um dos melhores amigos de Marcelo, que aparece, inclusive, na foto do time que meu filho jogava, na contracapa do livreto. Incrível, já que a cidade tem mais de 30 mil táxis. É coisa divina”, acredita.


Francisco Edson Alves
Fonte: Botafogo em Ação